Consciência de classe: Não há no mundo, como haveria na NFL?
Frente a uma disputa contratual entre o running back Le'Veon Bell e seu time, o Pittsburgh Steelers, os colegas de elenco da linha ofensiva dos Steelers vieram à público reclamar... do jogador. É mole?
06/09/2018 10h59
Le’Veon Bell, running back do Pittsburgh Steelers, já vem faz mais de dois anos tentando, sem sucesso, acertar com o time um contrato de longo prazo que reflita o que ele é: o melhor running back da liga. Os Steelers querem o jogador no elenco pelo melhor preço possível, mas não querem se comprometer investindo muito dinheiro em uma posição onde os atletas perdem muita eficiência com o desgaste característico da carreira e vem usando as armas que têm para mantê-lo em campo.

Para isso, os Steelers usaram a franchise tag, ano passado, e Le’Veon Bell jogou a temporada 2017 com um salário razoável (a franchise tag é um contrato de um ano onde o jogador é obrigado a ficar no time que a aplicou ganhando a média da liga dos cinco maiores salário da posição – em 2017 foi mais de 12 milhões de dólares, ótimo valor para uma temporada), mas sem a segurança de um contrato longo prazo. Este ano, sem chegar a um acordo com o jogador, o time usou a mesma ferramenta levando, de acordo com as regras da liga, a uma majoração do salário para 120% do salário do ano anterior (o que faz com que a aplicação contínua da franchise tag seja beeem desencorajada - Kirk Cousins, quarterback dos Vikings é outro exemplo recente do ocorrido, quando jogava em Washington).

Então é isso aí. De um lado, um jogador que até a franchise tag recebia salário do seu contrato de calouro escolhido na segunda rodada do Draft, jogando no nível mais alto possível e que nunca conseguiu que o time se comprometesse a longo prazo. Do outro, um time que extraiu muito mais valor do jogador do que teve que pagar, até que precisou usar de um recurso de curto prazo para mantê-lo jogando (e, é claro, perdendo anos de carreira sem garantia nenhuma), sem precisar comprometer qualquer valor futuro.

O papo é o de sempre. O jogador é visto como mercenário (não sem a ajuda do time vazando para a imprensa informações sobre suas ofertas, sem, é claro, esclarecer a proposta como um todo) enquanto o time só quer uma negociação justa. Enquanto isso, Le’Veon Bell pegou na bola em mais de 400 oportunidades no ano passado, o que por si só já ajuda muito a diminuir seu valor de mercado e a longevidade de sua carreira.

Este site está sempre do lado do jogador e nem venha me falar que o salário dele é na escala dos milhões e ele não pode reclamar. Estas mesmas pessoas não têm o hábito de criticar os donos de time que ganham muito mais dinheiro sem nem precisar colocar o corpo e a saúde na linha de tiro (para não falar que a carreira do jogador é de curtíssimo prazo, que a imensa maioria dos jogadores não ganham todo esse salário e que os jogadores contribuem muito mais do que o salário e garantias que eles recebem, só pra começar).

Nada de muito novo por aqui, este tipo de briga é antiga e vai continuar acontecendo. O que é digno de nota, nesse caso, é que essa semana a temporada começa e o Le’Veon Bell não apareceu para treinar ontem (05/09). Isso deixou claro que ele está fora da semana 1, que ele não tem previsão de retorno e, portanto, o time não pode contar com ele. Seus colegas de trabalho (mais especificamente, jogadores de linha ofensiva, diretamente relacionados à eficiência de Bell em campo), que deveriam entender a disputa contratual que ele está passando e estão, também, sujeitos às dificuldades de negociar com seus empregadores (quem diria, não é mesmo?), foram à mídia reclamar DO COMPANHEIRO.

Os guards David DeCastro e Ramon Foster, além do center Maurkice Pouncey, vieram à público falar mal do corredor, reclamando de sua ausência e, no caso de Foster, reclamando da ganância do colega (apontando o valor de seu próprio salário e do colega Alejandro Villanueva como comparativos absolutos, já que relativamente nem um, nem o outro, estão no mesmo patamar em suas posições do que Bell está na sua, mas esse é outro papo). Mas, talvez, o maior choque venha, justamente, do fato de que Foster e Pouncey são dois dos três representantes do time junto à NFLPA (NFL Players Association), o “sindicato” dos jogadores da liga.

Com um acordo coletivo que vence em 2020 e, assim, uma nova negociação com os donos de time e Roger Goodell chegando, nada mais triste que dois representantes dos jogadores tomando a posição aberta de pelego contra os interesses justíssimos de um atleta companheiro de profissão. Vale lembrar que o acordo coletivo da NFL é, de longe, o pior entre todas as principais ligas esportivas profissionais dos EUA e 2020 seria uma boa oportunidade de tentar remediar esse desequilíbrio.

Consciência de classe é um negócio que a gente não encontra (pelo menos, nem infinitesimalmente suficiente) no planeta terra e não é surpresa para ninguém que não exista na NFL também. Menos chocante ainda que aqueles que deveriam defender os interesses dos trabalhadores se coloquem justamente do outro lado do campo de batalha.

Vale lembrar que a NFL e seus times são os empregadores e os jogadores são empregados. Independente da escala salarial dos atletas (sempre lembrando que a maioria não ganha tudo isso que veio na sua cabeça), ou da exposição que o emprego deles tem, as dinâmicas do mercado de trabalho são as mesmas do resto do mundo, inclusive na enorme desvantagem que o trabalhador leva frente ao patrão.

Luta de classes. Acontece na vida, acontece na NFL.




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