O elefante racista na sala
12/09/2020 11h47 - por Marcelisco
Existe algo que, às vezes, parece se perder em meio a todo o debate sobre racismo e violência policial nos esportes dos EUA, que é a questão partidária da política americana. A própria tentativa da NFL e dos donos das franquias de querer dominar a narrativa e restringir as ações concretas e estruturais que devem ser tomadas nessa luta para mudanças significativas (não importa quantos milhões de dólares se comprometam a empregar).

Hoje, anos depois de Colin Kaepernick sofrer óbvio conluio da NFL para permanecer sem emprego por protestar contra a brutalidade policial em face da população negra do país, a NFL e as franquias parecem tratar como o consenso que deveria ser há muito tempo a urgência do debate sobre racismo.

Já era bem evidente para a população negra que chamava atenção para o problema há tempos, sem ser ouvida, mas Kaepernick conseguiu trazer mais evidência para o debate, assim como a exposição de casos recentes como os de Jacob Blake e George Floyd (pra ficar só em dois exemplos).

E, nesse contexto, a questão racial e a da brutalidade policial, completamente amarradas entre si, chegaram em um ponto onde é impossível para uma pessoa honesta lidando com as informações que acontecem no mundo reagir de outra maneira que não seja “bom, precisamos lidar com este problema”.

Uma enorme evidência sobre isso é justamente como a NFL e os donos de franquia tentam cooptar o movimento para “demonstrações de unidade” inóquas e vazias, ao invés da adoção de medidas concretas de mudança social.

E, olha, não vamos negar que é interessante esse caminhar do debate, mesmo que atrasado, ou fingir que as doações feitas pelos donos dos times não ajudem pessoas de maneira real e objetiva. Também não somos cínicos o suficiente a ponto de negar que medidas de incentivo a participação nas eleições sejam reais e possibilitem mudança. Só não é o suficiente e os donos, muitos deles doadores do partido republicano, sabem disso e, por isso, preferem conduzir a narrativa (se Jerry Jones concordar em se ajoelhar com os jogadores não mostra a preocupação que gera deixar esse debate na mão dos jogadores, nada mostrará).

Mas então, porque alguém vaiaria uma demonstração de unidade (o que caralhos significa uma coisa dessas?), algo tão inofensivo e óbvio que deveria ser fácil de simplesmente concordar e aceitar? E a resposta é a guerra cultural pela qual passa os EUA, o Brasil e o mundo.

A luta antirracista é a bandeira “deles”, dos “inimigos”. Inimigos de quem, você me pergunta? Do partido republicano, dos presidentes de EUA e Brasil. Não se pode dar atenção à bandeira do adversário, por mais óbvia que seja a necessidade da demanda.

É assim que a gente acaba com gente duvidando do racismo como problema ou, simplesmente, sendo racista e pronto. Já é difícil desapegar de privilégios que a gente reconheça, imagina gente que nem se dá ao trabalho de checar seus privilégios? Pois é.

2020 é ano de pandemia e, porque já tá provado que desgraça pouca é bobagem, também é ano eleitoral no centro do império mundial e a disputa de narrativas que o presidente dos EUA tenta conduzir só pode apelar pela separação e violência, se apegando ao racismo para apelar a uma base radicalizada que inclui nazistas, supremacistas brancos e terroristas domésticos.

A quem interessa alimentar com mentiras o imaginário de pessoas que simplesmente não aceitam que o racismo é um problema estrutural enorme e cruel? A quem interessa que algumas pessoas estejam escolhendo um lado numa discussão como essas que deveria ser consensual?

E a resposta sabemos bem, não tem mistério. O apelo para este discurso violento contra populações oprimidas que reivindicam seus direitos desde sempre é recurso eleitoral, é recurso político que gera dividendos bem concretos, como temos visto com um crescimento da extrema direita populista com tendências facistas por todo o mundo.

Nos EUA, o partido republicano virou o braço de apoio à personalidade do presidente Trump, destino óbvio e inevitável de um partido que há muito tempo apela para o racismo e a xenofobia para radicalizar seus eleitores, cultivando o terreno ideal para germinar esse verdadeiro movimento facista em torno de Donald Trump.

Enquanto se diz que são aqueles que chamam atenção para o problema que querem dividir, não há dúvidas que a divisão é causada por quem explora um falso debate para separar a população e conseguir eleitores fiéis e fanáticos que os sigam. Se isso prolifera o ódio, que seja. Ou há alguma dúvida que o racismo é um problema que precisa ser combatido?

Alia-se a isso uma agenda econômica que agrada demais as pessoas centristas que, na face, gostam de posar ao lado da luta antirracista, mas não estão comprometidas a contribuir com mudanças sólidas na raiz econômica do problema. Isso permite que o enlatado facista americano não só exista, mas sirva de produto de exportação para se vender no Brasil.

E a gente sabe como a nossa classe média adora um importado, não é mesmo?




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