Técnico da Universidade de Washington State ameaça jogador sobre envolvimento com movimento #WeAreUnited
O treinador universitário Nick Rolovich, da universidade de Washington State, foi gravado pelo próprio wide receiver Kassidy Woods falando sobre potenciais consequências que o jogador viria a sofrer caso resolvesse se envolver com o movimento #WeAreUnited
10/08/2020 18h47 - por Marcelisco
O futebol americano universitário vem sendo mais debatido que o normal em face das dúvidas de realização ou não da temporada 2020, como aconteceu com todas as ligas esportivas profissionais. Mas, ao contrário das ligas profissionais, a universitária conta com jogadores amadores que estão sujeitos aos desmandos dos milionários técnicos e diretores atléticos (para não falar nas administrações das universidades que faturam bilhões todo ano com o trabalho em troca de bolsas de estudos que não podem ser usufruídas.). Isto está para mudar, o que não agrada nada nada quem sempre esteve acostumado a só mandar.

Toda a discussão do futebol americano universitário ganhou ares novos, nos últimos dias, com a criação de um movimento aparentemente sólido de atletas da conferência PAC-12 (que inclui Washington State), em reação às condições nada ideais oferecidas pelas universidades com a eventual volta da temporada. Com a troca de ideias entre os jogadores, o movimento acabou ganhando novas pautas como justiça racial, direitos econômicos para os jogadores e a criação de uma representação dos atletas universitários. Os jogadores prometem não jogar em 2020 caso não tenham suas reivindicações atendidas.

Este movimento ganhou o nome hashtag de #WeAreUnited.

O #WeAreUnited, que engloba os jogadores da conferência principal da costa oeste, ganhou a participação de muito atleta de peso e se provou o primeiro passo dentre outros, como o movimento #WeWantToPlay, que parece reivindicar melhores condições para os atletas universitários de todo o país e conta com nomes de peso como Trevor Lawrence e Justin Fields, os principais quarterbacks da temporada universitária de 2020.

Toda essa movimentação assusta a NCAA e com muita razão. O órgão gestor do esporte universitário americano está acostumado a mandar e desmandar, sempre conseguindo empurrar pra longe a pauta econômica ou algum poder de negociação para os seus "estudantes-atletas".

E se a NCAA está devidamente preocupada, qualquer perfil conservador que costuma defendê-la e defender o amadorismo forçado do esporte também está. Foi o que vimos com o treinador da universidade de Washington State, Nick Rolovich, quando gravado conversando com o wide receiver Kassidy Woods.

Woods ligou para seu treinador para informar que não jogaria a temporada 2020 já que tem anemia falciforme e, portanto, é grupo de risco da COVID-19. Até aí tudo bem. Rolovich aceita numa boa.

É o que vem depois que fica difícil de engolir. Depois da explicação de sua condição de saúde, Rolovich diz:

"Não tenho nada de errado com isso. Foi por isso que eu te falei, eu não me importo. Agora, você vai se juntar àquele grupo de união de futebol americano da PAC-12, é isso que isso é?"

Quando o jogador confirma que, sim, tem interesse a se juntar ao movimento que reivindica melhores condições para os jogadores universitários, o técnico muda o tom de vez:

"Então isso vai ser um problema se alinhar com eles no que se refere à questões futuras, certo? Porque essas coisas do COVID são uma coisa, but se juntar a este grupo coloca você em uma - obviamente você vai ficar com a sua bolsa de estudos este ano, mas vai ser diferente. Se você falar 'Estou optando não jogar por causa do COVID e saúde e segurança, eu estou bem, mas esse grupo vai mudar, acho eu, como as coisas vão no futuro para todo mundo. Pelo menos na nossa escola. Então, apenas pense sobre isso. Se é sobre ser pago para jogar, etc etc etc, lutar injustiça racial e aquelas coisas, então tem dois lados aqui. Eu estou bem com anemia falciforme e COVID, mas esse grupo vai estar em um nível diferente sobre como vamos seguir no futuro, eu acho. Faz sentido?"

O jogador confirma que entendeu e o técnico finaliza:

"OK. Tem um jeito que vamos lidar com isso se for relacionado a COVID e tem outro jeito que vamos lidar com isso se for se juntando a este grupo. Então, agradeço você me informando e eu ia endereçar essa questão amanhã a noite no Zoom. Então, não, eu agradeço você me contando. Não tenho nada de errado com isso. Você vai pra casa?"

O treinador ainda informou ao jovem recebedor que ele teria que limpar seu armário e não poderia participar das atividades do time. Ainda assim, Woods sentiu que foi cortado do time e a razão sendo o envolvimento com o movimento #WeAreUnited. Ainda que Woods estivesse reagindo exageradamente (considerando que esvaziar o armário e se afastar fo time faz parte do protocolo regular), a fala do treinador em nada garante que quando voltar para a temporada que vem, Woods terá espaço no time e bolsa de estudos garantida.

Do lado de Rolovich, ele foi gravado, então sabemos que não vai dar pra falar que não disse o que disse. Resta apenas os tradicionais, porém irmãos "fui tirado de contexto" ou "fui mal interpretado".

Rolovich optou pela segunda opção, com acréscimo da boa e velha "se fazer de sonso", em sua declaração oficial sobre o assunto:

"Conversei com Kassidy Woods em uma conversa privada pelo telefone na tarde do último sábado (1º de agosto). Isso foi antes do grupo #WeAreUnited divulgar sua carta de preocupações. Kassidy me informou que estava optando por não jogar esta temporada por preocupações de saúde e segurança. Eu gostaria de esclarecer com Kassidy que a sua decisão foi baseada em saúde e segurança e reafirmar nossa política relacionada ao COVID-19 e a garantia de sua bolsa de estudos. Sem saber as preocupações do grupo, eu me arrependo que as minhas palavras de advertência à Kassidy tenham sido interpretadas como oposição. Tenho orgulho dos nossos jogadores e de todos os estudantes-atletas por usarem sua plataforma, especialmente para assuntos pelos quais acreditam com paixão. Os estudantes-atletas do futebol americano da WSU que expressaram apoio ao grupo #WeAreUnitedvão continuar a ser bem-vindos a todas as atividades relacionadas ao time, a não ser que optem por não jogar por questões de saúde e segurança"

Olha, Rolovich é o tipo de cara que quando seu time está tomando uma lavada tem as moral de tirar o banco de reservas para seus jogadores não poderem descansar, então não tenho porque nem tentar pegar leve com ele. Mas essa mentira que ele contou para se explicar obrigou o técnico a se comprometer com a bolsa de seus jogadores que fizerem parte de um movimento que tende a crescer e trazer discussões muito sérias que podem alterar a história do futebol americano universitário.

O próprio treinador percebe a importância e potencial do movimento no trecho grifado de sua fala, ali em cima. O conjunto todo da fala, na verdade, simboliza o medo que sente o pensamento conservador a respeito do amadorismo dos esportes universitários nos EUA.

Kassidy Woods não joga em 2020, gravou o treinador fazendo ameaças ao seu futuro, "obrigou" Nick Rolovich a se comprometer com as bolsas de seus colegas integrantes do movimento #WeAreUnited e volta ano que vem com a bolsa de estudos lá.

Woods pode nunca ir para a NFL, mas seu lugar em nossos corações está garantido para sempre.




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