Jogadores universitários querem jogar, mas suas demandas e sua união já assustam a NCAA
Enquanto as conferências universitárias não conseguem dar uma resposta razoável às demandas dos jogadores universitários de maior segurança sobre a pandemia, os jogadores se unem, discutem a criação de uma representação de atletas e assusta a NCAA
10/08/2020 11h47 - por Marcelisco
Com a pandemia comendo solta, a própria volta de esportes é questionável, principalmente se estivermos falando dos dois países líderes em casos e mortes por COVID-19, Brasil e EUA. Nesse cenário, os jogadores universitários, preocupados com as condições sanitárias e protocolos de segurança a serem obedecidos para poderem jogar, resolveram se unir e fazer demandas às universidades como o estabelecimento de um protocolo mínimo de saúde e segurança, além de um mecanismo de controle da conformidade de cada universidade com o protocolo.

Este debate tão simples, gerou nos jogadores um sentimento de união e organização talvez jamais visto e que pode levar a uma mudança radical de paradigma nos esportes universitários americanos.

Das cinco principais conferências da NCAA, a PAC-12 e a Big Ten foram as primeiras a se posicionar oficialmente, com a primeira chegando a levantar não só a pauta do COVID, mas também a tocar até na possível remuneração de atletas, um pesadelo para o órgão responsável pelo esporte universitário no país e para as universidades. Os jogadores da PAC-12 envolvidos no chamado #WeAreUnited declararam que não jogarão em 2020 caso suas demandas não sejam atendidas.

Se a Big Ten se ateve à questão do COVID, é outra conferência cujos atletas se esforçam em se unir e toda essa discussão vem levando jogadores do país inteiro a discutir seu papel nisso tudo.

Veja só, os jogadores querem jogar, como evidenciado pelo movimento #WeWantToPlay. O principal nome universitário e potencial primeira escolha do Draft no ano que vem, Trevor Lawrence, quarterback da universidade de Clemson, tuitou no final de semana sua vontade de jogar argumentando que os jogadores poderiam estar em mais risco em casa do que nos campi das universidades, mas que, para isso, seria necessário o estabelecimento de medidas mínimas para a pandemia. Não usou a hashtag, mas isso foi corrigido na noite de ontem.

Também na noite de ontem outro nome muito importante a se juntar à Lawrence foi o também quarterback Justin Fields, de Ohio State. Isso faz com que os dois principais quarterbacks da temporada universitária e que devem ser escolhidos cedo no Draft de 2021, tenham se posicionado com as seguintes demandas, que não apagam as demandas propostas pelos jogadores da PAC-12 e seu movimento #WeAreUnited (muito pelo contrário).

O tweet de Fields e de Lawrence trazem a mesma imagem
 


Os jogadores querem: jogar nesta temporada, o estabelecimento de protocolos universais na NCAA para proteger os atletas da pandemia, oportunidade dos jogadores decidirem não jogar este ano sem consequências como perder a bolsa de estudos, a criação de uma associação dos jogadores universitários, esta associação ter jogadores representando todas as conferências do Power Five (SEC, Big 12, Big Ten, PAC-12 e ACC).

Isso tudo porque a NCAA vem ameaçando não realizar a temporada em 2021. Claro que a gente sabe que é mais uma ameaça, em linha com o que fez a MLB, já que o dinheiro dos programas de futebol americano são o ganha pão de muita universidade pelo país, mas o risco tá aí.

As divisões II e III da NCAA já cancelaram e a NCAA deve estar inteira cagada de ver o perigo da união entre os atletas e de todas as demandas que eles vem fazendo que a NCAA não parece ter interesse de colocar em prática. Pra não falar que a NCAA não fez qualquer coisa, tá aqui uma medida super importante que eles já estabeleceram.

A decisão de jogar ou não vai ficar com um conselho de diretores atléticos da primeira divisão universitária, depois de ter sido postergada e passada adiante por muitos outros conselhos da NCAA. Ninguém quer ser o responsável por tomar a decisão de jogar (muito menos a de não jogar), ainda mais com os jogadores se posicionando tão abertamente tanto por jogar, quanto pelo estabelecimento de um protocolo sério de segurança que garanta o bem estar e saúde de todos.

Se a ideia de jogar parece óbvia pela receita que envolve a realização da temporada e o quanto essa receita é substancial para as principais universidades envolvidas, a tendência do momento é que a NCAA e as Power Five decidam não liberar os esportes de outono.

Vale lembrar que a maioria das universidades não está recebendo outros estudantes e receberia apenas os atletas nos seus campi para a temporada 2021.

E pra não ficar só em PAC-12 e Big Ten (e, é claro, ACC representada ali no Lawrence), sabemos que os jogadores da SEC (Alabama, Auburn, Georgia, dentre outros programas) estão preocupados com o que não está sendo feito, como ficou claro após o vazamento desta reunião entre representantes médicos da SEC e jogadores.

Como bem apontado pela excelente Jemele Hill, o que temos aqui é que toda uma economia de bilhões de dólares gira em torno de jogadores "amadores" que seriam obrigados a voltar a jogar sem qualquer plano consciente de proteção daqueles que ganham estes bilhões para proteger os atletas que geram toda a receita.
 


Quem gera a receita está conversando, se organizando e começando a se perceber como sujeito de muito mais direitos do que aqueles que usufruíram até agora. Como sabemos, direitos são conquistados através da união e luta e nunca são entregues de boa vontade por aqueles que detém o poder e os privilégios.

Vamos acompanhar de perto novos desenvolvimentos de uma situação que fica cada vez mais séria e complexa, mas que deixa a gente sonhar com um esporte universitário mais justo.




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