A inocência(?) de Lamar Jackson
O atual MVP e #1 na lista de melhores jogadores da liga de acordo com os próprios jogadores parece não ter muito tato para falar sobre assuntos complexos como o presidente supremacista branco do seu país ou o histórico extremamente problemático do wide receiver Antonio Brown dentro e fora de campo
30/07/2020 16h42 - por Marcelisco
Vamos começar registrando que qualquer atleta profissional tem o direito de se posicionar politicamente qualquer posição que seja ela, ok?

Só que também vamos registrar que qualquer posicionamento político está sujeito a ser criticado quando você é uma pessoa pública. O que não dá pra aceitar é o papo de sempre de querer que os atletas só falem de esporte.

Certinho? Pois bem, vamos lá.

Primeiro o quarterback do Baltimore Ravens, Lamar Jackson, surpreendeu quando mandou um tweet, depois explicado por ele próprio, de agradecimento a um elogio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à escolha de Jackson no final da primeira rodada do Draft de 2018.
 
 
Se o tweet não tem nada demais, a causa do espanto geral foi ver um atleta negro interagir com leveza com a figura problemática que é o presidente dos Estados Unidos. Jackson não entendeu a repercussão e explicou que não estava tomando um posicionamento político explícito e apenas agradeceu o elogio recebido.

Direito de ambos. De Trump de elogiar e de Jackson de agradecer publicamente.

Claro que o direito de Jackson de falar o que quiser com quem quiser é o mesmo de seus colegas de profissão de protestar contra a brutalidade policial no país, ao contrário do que pensa o próprio presidente dos Estados Unidos. O maior choque de todos fica por conta de um atleta negro com tanta visibilidade tratar como uma pessoa qualquer um presidente com ligações sérias com o nacionalismo branco e que também pediu a demissão de qualquer atleta que ousasse protestar a brutalidade policial contra a população negra. O mesmo homem que politizou os protestos e tentou (com êxito e desonestidade) pintá-los como desrespeito à bandeira e ao exército. 

Não fosse o suficiente, Trump também teve isso aqui para dizer sobre a cidade que o ex-quarterback da universidade de Louisville representa na NFL. Pois é.

O mesmo espanto da população em geral sobre a interação entre os dois foi o de Jackson com essa mesma reação. Agora, será que ele deveria ter ficado tão impressionado que a mídia e o público em geral reagiram chocados com a troca de tweets? E considerando legítimo esse choque do Lamar Jackson, a única pergunta que resta é: quão alheio ao mundo ao seu redor o jogador está?

Agora, Lamar Jackson teve a oportunidade de treinar na intertemporada com seu principal recebedor Marquise "Hollywood" Brown. O primo do recebedor treinou junto e era ninguém mais ninguém menos que o atualmente desempregado e também recebedor Antonio Brown.

Após o treino, Jackson registrou interesse em jogar junto com Antonio Brown, em Baltimore, e reforçou o desejo em entrevista recente. Disse que ficaria feliz se seu time assinasse com o problemático wide receiver cuja última passagem foi com o New England Patriots, ano passado. Disse também que Antonio Brown pareceu um cara legal nos exercícios que fizeram juntos, que Brown é um jogador apaixonado pelo jogo e que se dedica muito.

O líder do ataque de Baltimore ainda acrescentou que o vestiário do Baltimore Ravens seria ideal para ter Antonio Brown porque lá o burburinho de fora do vestiário não afetaria a relação entre os jogadores e o deixaria afastado de problemas.

A questão? Antonio Brown, talvez o melhor wide receiver da última década na NFL, foi trocado dos Steelers para os Raiders, entre as temporadas 2018 e 2019, justamente por ser um problemasso no vestiário, brigando com a mídia, treinadores, colegas de equipe e arranjando um monte de confusão extra campo.

Uma vez em Oakland,já em 2019, o comportamento de Brown se mostrou ainda mais errático, perdendo a maior parte do training camp sem qualquer aviso à equipe, prometendo se aposentar se não pudesse usar seu capacete favorito, sumindo dos treinos, pedindo desculpas públicas aos colegas por seus erros para logo depois pedir diretamente para ser cortado quando multado pelas ausências injustificadas. O técnico Jon Gruden e o general manager Mike Mayock ficaram doidos com Brown e pudemos acompanhar a saga de pertinho no "Hard Knocks" (reality que acompanha, anualmente, a preparação de uma equipe da NFL para a temporada e que, por acaso, acompanhava os Raiders no ano passado).

Depois de cortado, assinou com os Patriots e, após um único jogo, acabou cortado quando ganharam repercussão acusações graves de assédio sexual vindas de sua preparadora física e de uma artista contratada para um trabalho em sua casa. Estes não foram os únicos rolos nos quais Brown se meteu, mas foram os mais graves, por movitos óbvios.

(os casos de assédio sexual ainda têm punições pendentes pela NFL e, caso volte a conseguir um time para jogar, terá que cumprir uma suspensão de, provavelmente, uns 8 jogos)

Tudo isso e Brown ainda se aposentou depois de ser cortado pelos Patriots, se aposentou outras vezes desde então, enquanto o mundo do futebol americano parecia ter chegado no consenso de que Antonio Brown precisaria de acompanhamento psicológico urgente para entender o motivo para esse seu comportamento instável (por falta de uma palavra melhor), que incluiu divulgar vídeos treinando em casa com calçados pra lá de inapropriados para a prática desportiva

Imagina ignorar todos os problemas notoriamente conhecidos de uma pessoa e se basear apenas em "ah, ele foi simpático comigo quando eu conheci".

Lamar Jackson sabe de toda essa história e acha que o clima do vestiário dos Ravens, um time historicamente bem organizado e liderado, seria o ideal para a redenção do ex-recebedor de Steelers, Raiders e Patriots. A fala de Jackson praticamente joga a culpa de todos os problemas de Antonio Brown na mídia, nos vestiários por onde passou, na percepção das pessoas, menos no cara que aprontou tudo o que aprontou.

Percebe o padrão?

Lamar Jackson, até hoje, não se mostrou um otário. Muito pelo contrário, parecer ser um cara legal, um jovem promissor que já é o MVP da NFL após apenas sua primeira temporada completa como titular do time. Jackson é jovem, empolgante, divertido, eletrizante e carismático, pra dizer o mínimo. O problema é que a leveza com que trata figuras visivelmente problemáticas passa a sensação de uma inocência tão forte que não deveria ter lugar no mundo adulto.

Trump não é só o presidente dos Estados Unidos. Antonio Brown não é só um jogador procurando emprego. Jackson tem todo o direito de apoiar ambos, mas não de maneira tão inocente que beira o cinismo e através da qual tenta se blindar das críticas que recebe pelas interações.

Jackson devia saber dessas coisas, mas não sabe e o problema é justamente esse.

Ou sabe, e o problema é maior ainda.




Obrigado por comentar!
Erro!