Tá muito enganado quem pensa que o maior obstáculo para a temporada 2020 da NFL é o protocolo sanitário
Com uma temporada que só pode acontecer em um cenário completamente novo e fora do "normal", determinado em conjunto por liga e jogadores, o conflito direto entre estes dois grupos passa a ser o maior entrave para a realização da temporada
09/07/2020 15h40 - por Marcelisco
Até aqui, a maior dor de cabeça do fã de futebol americano a respeito da realização da temporada 2020 vinha sendo a possibilidade da liga estabelecer protocolos sanitários mínimos que protegessem os atletas, comissões técnicas e funcionários, além de garantir que a realização dos jogos aconteceria da maneira mais tranquila possível. Entretanto, novos desenvolvimentos nas negociações entre a NFL e o sindicato dos jogadores mostram que o cenário é muito mais complicado e que os jogadores não vão aceitar qualquer coisa que a instituição decidir sozinha, tanto na questão sanitária, quanto na financeira. Já vimos este conflito se desenrolar no baseball com a Major League Baseball, liga profissional americana de baseball, e veremos agora no futebol americano também.

A questão sanitária, obviamente, é muito importante e, por isso mesmo, vem sendo discutida à exaustão, seja pelas autoridades médicas envolvidas, seja pelos próprios jogadores, mas também pelas comissões técnicas, pelas autoridades públicas e pelos jogadores mais uma vez. Todavia, existem outros pontos que precisam ser resolvidos e é, nesta hora, que sabemos em primeira mão que não importa quantos zeros venham ao final do seu salário, se você não é o patrão, você não manda em ninguém e, se você não manda em ninguém, é obrigado a obedecer quem manda, se quiser trabalhar. E se você não é o patrão, não manda em ninguém e quer trabalhar, a única solução que você tem é se unir àqueles que não tomam decisões para tentar garantir condições mínimas e razoáveis de trabalho.

Chegamos em meados de julho com a discussão a respeito dos protocolos de saúde encabeçando a lista de problemas, de acordo com a mídia. Mas o que a discussão dos protocolos de saúde conseguiu fazer foi postergar ou esconder um problema mais grave, que são as discordâncias da NFL e do sindicato dos jogadores, a NFLPA, não só sobre os protocolos, mas sobre a questão financeira.

A primeira discordância é uma que praticamente finge estar dentro da discussão dos protocolos sanitários. Estamos falando dos jogos de pré-temporada.

São jogos que, como sabemos, não valem nada, colocam os jogadores em risco (quem se esquece do caso de Jordy Nelson, em 2015?) e acabam servindo para os times conseguirem montar seus elencos, principalmente olhando para jogadores que teriam poucas, se alguma, oportunidades em jogos da temporada regular. É na pré-temporada que você descobre alguns talentos para o seu time e, da mesma maneira, é na pré-temporada que alguns jogadores menos badalados conseguem a oportunidade de cravar seus lugares no elenco.

De todo modo, mesmo que seja uma oportunidade para os jogadores brilharem e se firmarem em disputas acirradíssimas por vagas em um dos 32 times, os jogadores não estão seguros de que jogar partidas de pré-temporada seja uma boa ideia. Na real, alguns não estão seguros de que a temporada toda seja uma boa ideia (por sinal, esta é uma discussão séria, por si só, e jogadores como os irmãos McCourty e Stefon Diggs já externaram preocupação). Mesmo assim, a NFL decidiu unilateralmente que a pré-temporada seria reduzida, mantendo dois jogos.

Recentemente, tivemos uma movimentação importante no estabelecimento do conflito aberto entre a liga e os jogadores. Como noticiamos aqui, o presidente do sindicato, o center J.C. Tretter, do Cleveland Browns, colocou as cartas na mesa e cobrou da NFL uma postura que continue seguindo as orientações médicas dos especialistas pertencentes a um Comitê Conjunto estabelecido entre liga e atletas, como foi feito até aqui. A decisão de manter dois jogos de pré-temporada ao invés de cortar logo todos, indo contra as indicações dos especialistas, mostra a primeira vez em que a NFL, deliberadamente, contraria as melhores orientações de segurança e saúde.

E não para por aí. O comitê conjunto teria indicado um calendário de 48 dias de pré-temporada, organizado em uma retomada de atividades que permitisse não só que todos os envolvidos tivessem um risco menor de contágio e consequente proliferação do vírus, como também que os atletas não sofressem um aumento no número e gravidade de lesões. Conforme apontado por Tretter, após o lockout de 2011 as lesões aumentaram muito e a NFL pode trabalhar em cima de número de ligas esportivas profissionais ao redor do mundo que já retomaram suas atividades.

Ainda assim, a NFL não está disposta a seguir o calendário de 48 dias preparado pelos especialistas, muito menos zerar a quantidade de jogos de pré-temporada.​ Não só isso, os jogadores não precisam, e nem querem, se apresentar antes do final de julho, de maneira a acomodar este calendário de 48 dias, pois vai contra o estabelecido no Acordo Coletivo de Trabalho recém "negociado" com a liga, parte das poucas "vitórias" dos jogadores, de uma negociação da qual a NFL saiu muito mais beneficiada.

E por que será? Por que a análise dos elencos sobrevive à retirada de dois jogos de pré-temporada mas não de todos os quatro?

Em um ano que vai ser marcado pela evidente queda de receita, todo joguinho de pré-temporada importa e o motivo para não cancelar a pré-temporada inteira é, como tudo que move as decisões de bilionários, DINHEIRO.

Contudo, a justificativa da NFL foi, realmente, a de analisar os elencos e testar os protocolos dos estádios em dia de jogo, mesmo quando o sindicato dos jogadores pediu que fossem apresentadas razões médicas para a decisão. A questão é que se o motivo fosse só esse, não deveria ser tanta dor de cabeça assim cancelar mais dois jogos e seguir o protocolo determinado.

Então, veja só. 2020 é uma temporada que, se for realizada em sua integralidade, ainda terá um impacto financeiro muito grande com a diminuição considerável dos fãs nos estádios, isso se eles tiverem permissão para ir aos jogos. Cada time recebeu autorização da NFL para decidir a capacidade de seu estádio nos dias de jogo e, como exemplo, temos o Baltimore Ravens planejando contar com menos de 14.000 torcedores por partida, sendo que o M&T Bank Stadium tem capacidade para mais de 70.000. Só em Baltimore são, no mínimo, 56.000 torcedores a menos por partida comprando ingresso, bebidas, comidas, camisetas, apetrechos e o que for.

Esta queda de receita que acontecerá com todos os times da liga terá um efeito na própria capacidade operacional da NFL, uma empresa estruturada para atender uma determinada demanda, cuja estrutura tem um custo. E é aí que entra o próximo ponto de discórdia, o mais complicado e, até por isso, o mais importante: a NFL quer reter como garantia 35% do valor do salário dos jogadores para essas despesas operacionais da realização da temporada.

Precisa nem dizer que o sindicato, em mais um posicionamento forte e atípico em seu histórico, já mandou a NFL ir catar coquinho com a ideia. O insider da NFL Network, Mike Garofolo, disse que um jogador o informou que as chances de aceitarem uma coisa dessas são de "menos que 0%".

E se você está achando que os jogadores estão sendo intransigentes e levando vantagem enquanto os donos de time e a liga saem prejudicados, sou obrigado a lembrar que: 1) os jogadores são passados para trás em uma proporção infinitamente maior, desde contratos encerrados antes do prazo, contratos sem garantias nem por lesão, contratos de curto prazo, até por abrir mão de valores em razão de questões como "ajudar o time a montar elenco" ou "provar seu amor à camisa e à cidade"; 2) os donos são bilionários e tomam todas as decisões sobre o vai e vem da liga e 3) os jogadores são quem já correm risco de vida e, em 2020, isso fica ainda mais potencializado com a possibilidade de contração de um vírus mortal, enquanto os bilionários ficam confortáveis em suas poltronas douradas.

Resumindo: pode ir pegando gosto por assistir jogo velho, que a chance de a temporada não rolar é enorme.

Este site apoia integralmente o sindicato dos jogadores e qualquer sindicato cuja atuação permita que os trabalhadores, de qualquer tipo, função e remuneração, consigam negociar, verdadeiramente, com aqueles que detêm os meios de produção e, com isso, todo o poder de decisão na sociedade.


*Ilustração de Guga Sanches




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