Tá, vamos falar com calma sobre o novo contrato do Patrick Mahomes e sobre os insiders da NFL
Perdido no meio do marketing do Primeiro Contrato de Meio Bilhão de Dólares da História dos Esportes Americanos™ estão os verdadeiros números do contrato e o negócio não é tão bonito assim para o atual MVP do Super Bowl, quarterback do Kansas City Chiefs
07/07/2020 02h44 - por Marcelisco
Vamos combinar que meio bilhão de dólares é uma quantia que choca qualquer um quando estamos falando de contratos de atletas profissionais de futebol. Tanto é, que nunca existiu um contrato desse tipo. E ao que tudo indica, continua não existindo. Os verdadeiros valores do novo contrato de Patrick Mahomes, agora com um pouco mais de informação, além do valor astronômico de 503 milhões e dos 10 anos de duração, mostram uma clara vantagem para o time em cima do jogador e valores que não fazem jus ao título de contrato de meio bilhão de dólares.

A explicação dos valores e estrutura do contrato vai de mãos dadas com a explicação do papel dos "insiders" nas negociações, em geral, mas principalmente na publicidade desta aqui.

O que foi reportado, primeiro por Adam Schefter, da ESPN, foi uma extensão contratual de 10 anos Foi muito reportado mesmo. Ele trouxe a bomba, mas não falou em números e valores e isto vai ser muito chave nesta história.

Bom, um período longo que não costuma ser a praxe dos times e dos jogadores, com poucos exemplos na história como Michael Vick (Falcons), Brett Favre (Packers), Drew Bledsoe (Patriots), Donovan McNabb (Eagles) e Daunte Culpepper (Vikings), mas Mahomes é um jogador que teria merecido um contrato tão fora da curva. Legal. Sabemos que o contrato é longo, já é NOTÍCIA. Mas, tá faltando alguma coisa e todo mundo já estava falando a respeito: os valores.

Logo em seguida à Schefter divulgar a notícia original, a internet começou a especular o valor deste contrato de dez anos, inclusive o próprio Schefter. Ué, se um quarterback titular recebe lá seus 30 milhões de dólares por ano (com uma média máxima de 35 milhões para Russell Wilson, do Seattle Seahawks), em um contrato de 10 anos. Estamos falando aqui do, talvez, melhor quarterback da liga, e também um jogador jovem com a carreira inteira pela frente, então chegamos fácil em um total de 300 milhões de dólares.

Mas se a ideia seria ter a maior média contratual, já se podia começar a pensar, realmente, em superar a marca dos 400 milhões de dólares, pois  um contrato longo desses teria que ter uma média maior que a do #3 dos Seahawks, para levar em conta o aumento do teto salarial, que acaba desvalorizando salário de longo prazo. Só que não. Ainda Adam Schefter, levanta a bola (e abaixa ele mesmo) dos valores do contrato estarem atrelados à valorização do teto salarial. Curiosamente, durante a negociação de Wilson com os Seahawks, a possibilidade de ligar o salário ao teto salarial já vinha sendo ventilada como uma maneira revolucionária na indústria, em especial para os jogadores, mas que acabou deixada de lado.

Então já está bem claro que o contrato passa de 400 milhões de dólares, não é mesmo? Pois bem, o funcionário da ESPN nem hesita em cravar 400 milhões, NO MÍNIMO. A impressão que dá é de que Schefter está dando uma notícia, mas o que ele está fazendo, aqui, é especulando com inteligência e informação, mas sem qualquer confirmação real. Fazendo o maior auê do valor, retuitando essa comparação ao contrato do Mike Trout, do Los Angeles Angels, time da liga profissional de baseball (MLB), 400 milhões pra cá, contrato mais longo de todos pra lá.

Adam Schefter ainda daria esta notícia aqui, mas quem trouxe a bomba sobre o valor foi Ian Rapoport e Tom Pelissero, da NFL Network e NFL.com, informando que o contrato supera a marca dos 500 milhões de dólares. Rapoport, o principal insider da NFL Network, ainda faz o alarde de que era o primeiro contrato de meio bilhão de dólares da história do esporte. Rapsheet, como é conhecido no Twitter, ainda chamou atenção para os 477 milhões de dólares em "mecanismos de garantia" (vale explicar que do valor total de um contrato, há sempre um valor que o time garante que vai pagar ao jogador, independente de ele continuar no elenco, ou mesmo como garantia para o caso de lesão. É um valor futuro que não é pago no momento da assinatura do contrato, mas que é garantido que o jogador vai receber. É, basicamente, a grana que mais importa).

O que seriam estes "mecanismos de garantia", você me pergunta? É algo que acabou de ser inventado para esta operação e contou com a ajuda dos insiders para ser divulgado por aí como uma proteção ao jogador, o que não é bem verdade. Veja, Ian Rapoport até te explica o que é esta nova expressão do jargão insider, e o próprio Adam Schefter foi bem rápido em também adotá-lo, já que os insiders atuam como representantes dos times, da liga e, as vezes, até dos agentes e jogadores, conduzindo a narrativa das renovações contratuais e tendo participação ativa no mercado da liga, principalmente como os famosos "leva e traz".

Então temos:

O valor base do contrato é de 477 milhões de dólares, e o período é de 12 anos, pois junta com os 2 anos de contrato que Mahomes já tinha acertado com o time. Por este seu contrato de calouro, o jogador já teria devidos 27 milhões de dólares do time pelos anos de 2020 e 2021, fazendo com que a extensão seja, na realidade, de 10 anos, pelo valor de 450 milhões de dólares. A primeira média é de 39,8 milhões de dólares por ano, pouco acima da média de Russell Wilson, enquanto que a segunda sobe para 45 milhões de dólares ano, valor mais interessante, mas que deve ser rapidamente desvalorizado com novas renovações e o aumento do teto salarial.

Para chegar em 503 milhões de dólares, como reportado, o quarterback precisa fazer jus à 25 milhões de dólares através de metas como chegar ao Super Bowl ou ser eleito MVP da liga, coisa de 2,5 milhões de dólares por ano. Ou seja, pra receber meio bilhão de dólares, precisaria ser MVP e chegar ao Super Bowl todo ano por 10 anos consecutivos.

Mas nem falamos sobre a parte mais importante dos contratos: as garantias, os valores concretos que o time deve ao jogador logo que assina. A garantia por lesão chega na casa dos 141 milhões de dólares, mas e o resto? 

A assinatura do presente contrato é, basicamente, o time garantindo o contrato do jogador até 2022. Mahomes tinha 27 milhões de dólares garantidos pelo contrato de calouro e passa a ter 63 milhões de dólares garantidos por um ano a mais. Através dos tais "mecanismos de garantia", até março de 2021, o time deve decidir se garante mais 40,4 milhões de dólares referentes ao salário de 2023.

Dali em diante, todo ano em Março, os Chiefs decidem se garantem um novo período a Mahomes e, caso não garantam, o jovem jogador pode sair do time. É legal observar que o contrato traz uma cláusula que impede uma troca.

O saldo é que os Chiefs têm garantido até 2023, o melhor jogador da NFL por uma média de 25,8 milhões de dólares. Não bastasse, os valores como foram distribuídos permitem que o maior impacto no teto salarial venha a ocorrer apenas em 2023, quando o camisa #15 contará 42 milhões de dólares contra o teto, valor alto mas justificável para a atual futura cara da liga no mundo. A cada ano, a quantia "fica mais barata" com o aumento do teto e com as renovações dos demais passadores. Mesmo que os Chiefs não exercitem sua prerrogativa de corte e mantenha o jogador no elenco por muito tempo, sequer o salário seria um empecilho para a montagem de elencos capazes de brigar por títulos anos a fio. Se desaprender a jogar do nada, o time o corta e segue a vida, sem maiores consequências.

Não podemos deixar de falar que contratos assim dificilmente chegam ao seu final sem serem renegociados, através da provocação de qualquer das partes e apostamos que este será mais um caso assim.

Agora, o que tudo isso mostra é um compromisso enorme de Mahomes de continuar no time por muito tempo, depositando confiança em uma diretoria que levou uma enorme vantagem negocial, ainda que vendida pelos insiders como um negócio astronômico.

Talvez Patrick Mahomes tenha deixado de ganhar uma grana a mais e o que isso compra é a paz de não ter que jogar por contratos de curta duração ou pela franchise tag, com alto risco para o atleta e sem a certeza que um contrato de longo prazo passa, como é o caso de Dak Prescott, em Dallas.

Como deveríamos falar então do contrato? É uma extensão de 63 milhões de dólares até 2022 e de 103 milhões de dólares até 2023 (o que pode ser decidido até março de 2021). O time decidirá, ano a ano, quanto mais será garantido ao jogador, até atingir uma soma total de 477 milhões de dólares em 2031.

Para passar da marca do meio bilhão de dólares, Patrick Mahomes terá que atingir as metas do contrato todo ano (realmente um desafio quase impossível) e encarar o, quem sabe, maior desafio contratual da liga: ver seu contrato honrado do começo ao fim.

O talento de Mahomes é inegável e achamos até defensável que ele "valha" toda essa grana. Mas os contratos da NFL não são 100% garantidos como o são os da NBA e da MLB e, portanto, o quarterback do Kansas City Chiefs só poderá ser considerado um jogador de meio bilhão de dólares, se chegar em 2031 como o melhor e mais bem sucedido jogador de futebol americano de todos os tempos.




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