Os rico são tipo
05/07/2020 02h53 - por Marcelisco
Aí que chega a notícia de que uma raça alienígena chegou na Terra e, no que só pode ser presumido como uma capacidade de inteligência mais avançada que a nossa, foi direto pros Estados Unidos se apresentar, querendo fazer contato já sabendo quem é que manda.

A notícia corre o mundo, geral em choque “OS E.T., PAI!”, não sei quê. Bom, em algum momento, vai ter que rolar uma reunião com os cara, né? E o que vai acontecer é que eles vão perguntar pra gente “E aí? Como que funciona as parada por aqui?” E quem vai explicar pra eles como as coisas funcionam vão, obviamente, ser os representantes do mais alto escalão da GRANA. E eles vão dizer que “Bom, é isso. Acontece que, aqui na Terra, tem coisa de quase 8 bilhões de seres humanos (nos chamamos de “seres humanos”, as vezes "pessoas", por aqui. Aliás, número e tal cês manjam, né? Belê, só confirmando). E lá pruns 2 mil e poucos são donos da capacidade humana de produzir O QUE QUER QUE SEJA, mas principalmente aquilo que necessário para nossa existência. Eles são responsáveis por decidir como todas as coisas funcionam, inclusive quem pode ou não existir, para o total de outros 7 BILHÕES, 799 MILHÕES, 998 MIL seres humanos. Dá 0.025641025641026% de todo mundo que tá aí, decidindo como que a banda toca. Inclusive, nós fomos eleitos através de um sistema eleitoral que nem permite, muito menos incentiva, a participação desta enorme população mais interessada em decidir como as coisas funcionam por aqui, só para que este modelo continue intacto.”

“E vocês falam disso com tanta naturalidade assim?” diriam nossos agora chocados futuros ex-amigos

“Olha, não vou sair falando isso para todo mundo, preciso nem falar, né? O que nós falamos para a maioria esmagadora da população, que é comandada pelos nossos desejos para que nós possamos manter todos os nossos privilégios, é que eles vivem livres. Eles decidem o que é melhor e tudo o que eles precisam é o sonho desse conceito que nós estabelecemos qual é através do domínio completo da circulação de informação, desde a concepção das ideias, mas, principalmente, da capacidade de aplicação da violência e vigilância contra esta maioria absolutamente desproporcional que obedece aos nossos desmandos.”

Naturalmente, os mais avançados alienígenas vão perceber que “bom, então vocês têm mais do que todos os outros e dominam toda a capacidade de comunicação destas outras pessoas, tomam decisões sobre o quê e como é produzido, toda a organização de cunho familiar e social, como toda a informação que circula entre estes BILHÕES de indivíduos é permitida por e para vocês, inclusive com o controle da força, como um todo, e a capacidade de vigiar toda esta circulação entre eles. E vocês decidiram seguir com o mundo assim mesmo? Com uma quantidade absolutamente gigantesca de indivíduos com consciência de si mesmos, que sofrem dor, sentem alegria, obtém conhecimento e criam laços de afeto, morrendo porque não tem acesso ao combustível da vida no planeta de vocês? Enquanto este combustível é produzido em abundância o suficiente para ser exterminado em boa qualidade apenas para regular o funcionamento das trocas e produção de todo o planeta?”

“Não é possível que vocês sejam comunistas”, tão rapidamente quanto rispidamente algum representante “não” supremacista branco do governo diria.

“Papo de quê? Não sei o que é isso aí, rapá. A gente tá só querendo entender como que vocês não permitem que o modelo todo de organização da sociedade não possa ser um, aonde uma quantidade maior de pessoas tenha acesso ao mínimo para conseguir existir, considerando toda a tecnologia já criada pela sua raça para garantir a maior possibilidade de sobrevivência de um número maior da sua espécie”. A essa altura, já estava beeeem evidente que a tecnologia destes novos seres era muito maior que a nossa e, portanto, já estava criada a dinâmica de que eles é quem "falariam grosso".

A honestidade era nossa única saída “Acontece que é muito bom estar aqui, sabe? É tão bom tudo que a gente tem. Até a própria ideia de que tem tão pouca gente que consegue ter o que nós temos é algo que nos faz sentir prazer. Só de reacessar este pensamento conscientemente. Então, a gente tenta não permitir nem a própria opinião de que a maioria merece maior atenção e poder na tomada de decisões, de tanto que a gente gosta de como as coisas são: melhores para nós, piores para eles. A gente até chama de ‘democracia’ quando a gente finge que deixa eles decidirem, mas manipula todo o processo, inclusive apenas permitindo que concorram aqueles com ideias menos ofensivas à toda nossa estrutura.”

Os alienígenas se olhavam, consternados com a serenidade da descrição, enquanto os nossos representantes deixavam bem explicadinho como eles realmente acreditavam que estes pouquíssimos representantes abastados de pouquíssimos abastados, em um mundo onde uma quase inacreditável maioria de pessoas vivia sofrendo o que fosse para conseguir sobreviver, MERECIAM ter toda esta vantagem e, também, passa-la adiante para os similares que procriar, mantendo um ciclo eterno de verdadeira dominação sobre um número tão maior de seres que beira o cômico.

“E vocês acham normal isso daí?"

“É, ué. Não é?”

“E vocês nem tentam nada diferente? Nem falam a respeito? Estas outras tantas pessoas não se posicionam para intervir, ao menos, na discussão?”

“Pouquísimas. E, como mencionamos, com o controle definitivo sobre a circulação de informação e a capacidade de monopolizar a violência, conseguimos que dentre estes, chamados ‘pobres’, eles se dividam entre alguns que nos defendam, contra outros que nos criticam. Claro que, a alguns deles, permitimos até mais poder e uma existência menos dolorosa, desde que continuem a nos defender proporcionalmente às vantagens que têm sobre os demais seres que tentam existir. Achamos muito inteligente como o próprio pensamento que criamos de que todos os seres têm a chance de obter todos os privilégios que os superiores (chamamos de superiores, mesmo, acho que vocês já...? Sim? Ok.) possuem, faz com que muitos decidam se dedicar a tudo que nós mandamos com mais vigor, mesmo que a promessa de escalada seja quase completamente mentirosa.”

“Quase completamente?”

“Coisa de 95% pra mais aí, viu. Tem que olhar, deve ser pior. Tô até chutando. O que eu não te falei é que eu, como o representante ‘eleito’ da turma toda nesse modelo aí que te descrevi, sequer me dou ao trabalho de me informar para realizar o meu trabalho”

“Não é possível”

“É possível. É o que rola”

“E ninguém fala nada?”

“Fala”

“E não adianta?”

“Quando a gente fica com medo que adiante a gente só trata eles com mais violência e menos promessa de melhora de vida, dizendo que fazemos aquilo para o bem deles e, em seguida, dizemos para eles o que o ‘bem’ deles significa, com toda a nossa capilaridade comunicativa. Até deixamos outras ideias circularem, mas garantimos um esforço concentrado para difundir dentre estes menos favorecidos aquilo que achamos que nos interessa mais e à manutenção desta construção toda que estamos tendo que te descrever e, vou te falar, achei que eu ia até corar, mas nem corei.”

Um alienígena olha para o outro, sem saber o que fazer, dizer, sentir. Pensam que é tudo bastante absurdo e, ao mesmo tempo, tão óbvio. Quem tem mais, tem maior capacidade de determinar como as coisas funcionam. E eles escolhem, abertamente, que as coisas funcionem como eles preferem e eles preferem que o mundo inteiro sofra para tentar existir, enquanto isso gera uma capacidade ainda maior, a eles, de determinar como tudo funciona. Sim, claro, já deu pra entender que, empiricamente, eles já têm informação o suficiente para dizer que este modelo organizacional (que, de novo, eles escolheram utilizar) não serve para garantir a melhor, mais eficiente e sustentável existência dentro da espécie, levando todos ao caminho da extinção, o que inclui a destruição do próprio planeta por usar seus recursos para produção de tudo de maneira predatória. Mas, como eles conseguem convencer a todos de que eles, quem sabe, podem chegar em uma situação de privilégio cada vez maior, eles até acham bonito brigar entre si para perseguir esta promessa vazia.

Não vêem que deixam de lado a possibilidade de trabalharem juntos contra o interesse de uma minoria tão minúscula, tentando pensar em um mundo que não só garanta uma existência de melhor qualidade para tantos seres conscientes de si mesmos e de seus sofrimentos, mas também que tenha a chance de seguir existindo sem a destruição completa do planeta.

Aquilo tudo é tão primitivo. Até que um deles vira para o outro

“Menina, lembra até aquele outro lá, o planeta...”

“Aquele do...?”

“É, aquele do...”

“Sim, sim. Rapaz! Primitivo, né?”

“Vish. E aí, sair fora ou dar uma mão?”

“Deixa eles se virarem sozinhos.” riu

E, após se despedir de toda a comitiva humana preparada pelo governo dos Estados Unidos, os alienígenas entram na sua nave e vão embora. Para sempre.

Provando que alienígena pode ser tão sacana quanto rico.




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