Uma sexta-feira muito louca na NFL
A sequência de eventos nas redes sociais que levou a NFL e Roger Goodell, a finalmente, tomar um posicionamento aberto a favor da luta contra o racismo, contra a brutalidade policial e de apoio aos seus jogadores negros.
08/06/2020 10h44
O pano de fundo a gente já conhece e até comentou por aqui: Drew Brees acordou na quarta-feira, foi dar uma entrevista para o Yahoo, respirou fundo e invocou o argumento mais piegas, racista e diversionista sobre as manifestações de atletas que se ajoelham durante o hino nacional.

O posicionamento foi bizarro e bem difícil de entender como, depois de quatro anos, um jogador com tantos colegas negros e ativo na comunidade da cidade de New Orleans, onde se encontra uma das maiores populações negras do país não conseguiu aprender nada. Caridade não é sinônimo de aprendizado e isso ficou muito evidente.

Agora, o que a gente não sabia era que esta entrevista ia catalisar uma sequência de eventos que levou à própria NFL e o comissário Roger Goodell a declarar que Vidas Negras Importam.

Este relato do colunista Peter King, no Pro Football Talk, é completo e trata à exaustão o passo a passo desde a entrevista do quarterback do New Orleans Saints até seu recebedor Michael Thomas retuitar orgulhoso a resposta contundente de Brees ao presidente Donald Trump (sim!). Vale ser lido na íntegra, principalmente para entender os bastidores da produção do vídeo dos jogadores.

Mas aqui vai um resuminho:

Primeiro, é claro, Brees dá a entrevista. Se você ainda não entendeu o problema de relacionar os protestos de Colin Kaepernick com a bandeira e o hino dos Estados Unidos, como um desrespeito ao exército, talvez você devesse saber que o ex militar e jogador Nate Boyer foi responsável por encorajar Kaepernick a se ajoelhar. Talvez você devesse saber também que Kaepernick se posicionou abertamente a favor do país, da bandeira, do exército lá em 2016, mas explicou bem seus motivos para protestar: violência policial contra os negros do país. E se, ainda assim, você não entende que o jogador boicotado gosta de seu país, talvez devesse dar uma olhadinha neste link aqui.

O recebedor dos Saints, Michael Thomas, pegou mal. O colega de time e líder do Players Coalition, Malcolm Jenkins, pegou mal. Outros jogadores do elenco pegaram mal. Basicamente, todo mundo que não é abertamente racista e/ou desonesto pegou mal. Até o LeBron James, de outro esporte, pegou mal. O clima pesou e, a essa altura, todo mundo sabia que o vestiário em New Orleans ia ficar abalado e Brees precisava fazer algo a respeito.

Do outro lado, o presidente Donald Trump aproveitou com gosto a entrevista de Drees Bress para fazer o que faz de melhor: ser racista e divisivo para o país. O ano é eleitoral e reclamar de jogadores negros protestando é parte do seu ganha pão. Apoiou a manifestação do jogador, seguindo a mesma linha de quando pediu que quem se ajoelhasse durante o hino fosse demitido.

Na quinta de manhã, Brees soltou um pedido de desculpas mequetrefe nas redes sociais, mas que já serviu para acalmar os ânimos de Thomas e do linebacker Demario Davis, ambos aceitando as desculpas publicamente. O quarterback também teria usado uma intensa reunião de time para se desculpar com todo o elenco. Esta sim, descrita com bastante carga emocional e, sem dúvidas, um momento para Brees escutar bem seus colegas.

Na tarde daquele mesmo dia, a NFL soltou um tweet de apoio ao movimento Black Lives Matter, dizendo, dentre outras coisas, que sim: Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Além disso, declararam já ter realizado, até ali, a doação de 44 milhões de dólares, com mais 20 milhões para esse ano. A NFL se posicionava claramente a favor de um movimento que para os racistas de plantão deveria ser, inclusive, considerado terrorista. Não foi tudo isso, mas também não foi qualquer coisa.

Mas o melhor da quinta-feira ainda estava por vir. Um funcionário da própria liga, em parceria com Michael Thomas, vinha, em paralelo, preparando um vídeo com grandes nomes de atletas negros da NFL cobrando a liga sobre um posicionamento mais contundente contra a brutalidade policial, sobre realmente ouvir seus jogadores negros e suas queixas. O vídeo contou com a nata da nata da NFL: o próprio Michael Thomas, Tyrann Mathieu, DeAndre Hopkins, Odell Beckham Jr., Deshaun Watson, Jarvis Landry, Ezekiel Elliott, Stephon Gilmore, Saquon Barkley, Patrick Peterson, Davante Adams, Eric Kendricks, Marshon Lattimore, Anthony Barr, Chase Young, Jamal Adams e o atual MVP e campeão do Super Bowl, a tal “cara da liga”, Patrick Mahomes.

O vídeo, primeiro publicado no twitter do running back do New york Giants, teve enorme repercussão e foi um grande sucesso. Alguns dos maiores nomes da NFL cobravam publicamente a liga, com uma mensagem forte onde ainda lembravam algumas das vítimas de brutalidade policial dos EUA.

Com tudo isso rolando, seria de se imaginar que o comissário da liga, Roger Goodell teria que se posicionar e o vídeo dos jogadores, a situação de Drew Brees e os protestos por justiça racial em todo o país, tiveram um papel enorme em forçar sua mão. Na sexta-feira, chegou a vez de Goodell fazer o seu vídeo. Se a mensagem da NFL não tinha sido tão forte assim, em parceria com a do representante eleito por todos os donos de franquia, acabou sendo bem impactante. O que isso significa para o futuro, só vamos descobrir vivendo, mas a mudança de postura já era um bom sinal de que novos tempos virão.

A história, contudo, não acaba por aí.

O presidente mais laranja de todos os países de todos os tempos ainda queria poder nadar firme no racismo e o posicionamento de Brees, da liga, dos jogadores e de Goodell atrapalhava isso. Como um bom narcisista racista mimado, Trump foi ao Twitter reclamar do pedido de desculpas de Drew Brees mas, desta vez, recebeu uma bela invertida do jogador:

“Através das minhas seguidas conversar com meus amigos, colegas de time e líderes da comunidade negra, eu percebi que esta não é uma questão sobre a bandeira americana. Nunca foi. Não podemos mais usar a bandeira para mandar pessoas embora ou distraí-las das questões reais que as comunidades negras enfrentam.

“Fizemos isto em 2017 e eu lamentavelmente trouxe novamente à tona com meus comentários desta semana. Nós precisamos parar de falar da bandeira e concentrar nossa atenção para as reais questões da injustiça racial sistêmica, opressão econômica, brutalidade policial e reformas judiciais e do sistema prisional.

“Estamos em um momento crítico na história do nosso país. Se não agora, quando?

“Nós, como uma comunidade branca, precisamos ouvir e aprender da dor e sofrimento das nossas comunidades negras. Precisamos tomar conhecimento dos problemas, identificar as soluções e colocá-las em ação. A comunidade negra não consegue fazer isso sozinha. Isso precisa de todos nós.”


Michael Thomas aprovou MESMO o posicionamento de Brees e também o de Roger Goodell e, assim, entramos em uma nova fase da história da liga, aparentemente.

O quanto é possível confiar nas mudanças, só vendo. Também somos cínicos e pessimistas por aqui e sempre vamos duvidar de posicionamentos como este de empresas que sempre tomam atitudes baseadas na receita que aquilo vai gerar. Até por isso, chegamos até aqui com a NFL fazendo papelão atrás de papelão com Colin Kaepernick, o que inclui um treino para fingir que dava chances para ele e o próprio boicote do atleta.

Mas dá pra sentir que os ares não são os mesmos e se você não sente ao menos um pingo de esperança com isso, talvez seu pessimismo seja só fetiche.


Ilustração de Guga Sanches




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