Vic Fangio, técnico do Denver Broncos, acredita que não há racismo na NFL
Pode arquivar essa na pasta "Opiniões de Boomers" ou em "Homem Cis Hetero Branco dá sua opinião desqualificada"
03/06/2020 10h58
Em uma intertemporada marcada pela discussão da falta de diversidade racial entre os comandos dos times da NFL, em meio a uma onda de protestos por justiça racial que varre os EUA, o técnico do Denver Broncos resolveu dar o seu pitaco, já que a opinião desqualificada, insensível e ignorante do homem cis hétero branco é absolutamente inevitável. Especialmente na categoria tiozão, conhecida popularmente como “boomer”.

Eu acho que os nossos problemas na NFL nessas linhas são mínimos”, disse o treinador para o jornalista Jeff Legwold, da ESPN.com. “Estamos em uma liga de meritocracia, você conquista o que ganha, você ganha o que conquista. Eu não vejo racismo algum na NFL, eu não vejo discriminação na NFL. Nós todos vivemos juntos, unidos como um, por um objetivo em comum, e nós nos misturamos tremendamente. Se a sociedade refletisse um time da NFL, estaríamos ótimos.

Atualmente, em uma liga composta por 70% de jogadores negros, apenas 3 técnicos (Brian Flores, de Miami, Mike Tomlin, de Pittsburgh e Anthony Lynn, de Los Angeles) e 2 general managers (Chris Grier, de Miami e Andrew Berry, de Cleveland) são negros. Considerando minorias, como um todo, ainda temos o acréscimo de Ron Rivera, latino, como treinador do time de Washington (cujo nome, por si só, já é um caso bizarro de racismo que o dono do time e a liga se recusam a resolver).

É neste cenário que Vic Fangio, que é branco e, portanto, faz usufruto deste desequilíbrio, acredita ter problemas mínimos relacionados ao racismo. Ainda que a liga tenha 70% de seu corpo de atletas composta por negros, apenas 12,5% dos técnicos principais e 6,25% dos gerentes gerais são parte de uma minoria étnica. Por que então, senão pelo racismo estrutural da sociedade e pela composição esmagadora e majoritariamente branca dos donos da equipe, o treinador Fangio acredita que o número de comandantes não reflita a mesma proporção que o número de comandados? Será que o treinador Fangio acredita que jogadores negros não sejam competentes o suficiente para assumir cargos de comando, apenas para obedecer ordens dentro de campo?

Talvez pareça muito difícil acreditar que um pensamento tão raso e tacanho ainda faça parte da nossa sociedade, mas não só faz como tem servido para mobilizar manifestações contra o racismo, como as que estamos vendo nos EUA desde o assassinato cruel de George Floyd por um policial branco que, mesmo filmado, sequer tirou seu joelho do pescoço do rendido homem negro.

Isso tudo porque nem falamos sobre o comentário a respeito de meritocracia que, como sabemos, é uma ideia infeliz, inexistente e, com muito boa vontade, apenas utópica.

A verdade é que alguém deveria ter segurado a língua de Fangio que, diga-se de passagem, acabara de se reunir com seus jogadores e presidente do time. Mesmo tendo, na mesma entrevista incentivado a participação dos seus jogadores nas manifestações por justiça racial e destacado a liderança do safety Justin Simmons neste sentido, não há compensação pro tamanho da bobagem que falou.


Ilustração de Guga Sanches




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Filipeem 05/06/2020, às 19h43
"Eu não vejo racismo algum na NFL", disse o homem branco.