O que você sabe sobre Pat Tillman?
A história do jogador frequentemente lembrado por uma liga com laços tão próximos ao exército do país nem sempre é lembrada na íntegra por aqui
28/05/2020 16h38
Talvez você já tenha, ao menos, ouvido falar no ex-jogador da NFL Pat Tillman: um atleta profissional no auge de sua forma física que, após os atentados de 11 de setembro de 2001, resolveu se alistar no exército americano, deixando de lado milhões de dólares e uma carreira promissora para defender o seu país, para morrer como um herói durante a batalha num país desconhecido.

O quanto esse conto de heroísmo e amor pela pátria chega aqui para nós, como boa parte das histórias vindas da mídia esportiva americana, já filtrada e sem uma análise crítica da narrativa como um todo? O caso de Tillman é ainda mais complicado, inclusive na terra do Tio Sam e, por isso, vale tirá-la a limpo.

Tillman foi um homem com uma trajetória relativamente comum para um atleta americano: nascido na Califórnia, praticou mais de um esporte até decidir seguir com o futebol americano, tendo recebido uma bolsa da universidade de Arizona State para jogar como linebacker nos Sun Devils e se formar no curso de Marketing. Seguindo a carreira universitária, o jogador foi escolhido pelo Arizona Cardinals na sétima e última rodada do Draft de 1998. Mudou de posição para safety, em razão do seu tamanho, e teve um desempenho bastante honesto, se mantendo na liga, com destaque para sua temporada de 2000.

Até aí, poderíamos estar falando de muitos jogadores, vários daqueles caras que a gente lembra o nome, lembra um lance, tem um carinho parcial injustificado mas, no geral, um cara qualquer. O que começa a diferenciar a trajetória deste ex-jogador é justamente algo que veio a interromper esse caminho já tantas vezes trilhado.

Em setembro de 2001, os Estados Unidos sofreram ataques terroristas no próprio solo americano, em um evento que definiu uma geração no mundo inteiro e serviu de estopim para a chamada “Guerra ao Terror”, de George W. Bush. Tillman, então com 25 anos, decidiu integrar a linha de frente, não só pelo sentimento patriótico tão alimentado por lá, mas empurrado pelos seus característicos senso crítico e curiosidade. Alistou-se junto com o irmão mais novo Kevin, que então brigava por uma carreira no baseball no sistema de minor league do Cleveland Indians.

É aí que a história, que já foge do clichê do atleta padrão, começa a fugir do clichê do americano patriota padrão. Tillman não era nada disso, por sinal. Pelo menos não era SÓ isso. Ele era alguém com grande capacidade crítica, um ateu que não cansava de estudar tudo sobre diversas religiões, interessado em ajudar num conflito de grandes proporções sem esperar pelos resultados de longe, ainda que isso custasse um enorme conforto de milhões de dólares.

Tillman e seu irmão cumpriram uma promessa de não conceder entrevistas para que sua atuação fosse legítima e não apenas uma manobra publicitária do governo americano. Não estavam ali para trabalhar como garotos propaganda, mas sim colocar a mão na massa. Óbvio que isso não impediu o governo de tentar usar suas imagens, inclusive levando em consideração a proximidade do exército americano e da NFL, mas sem muito aprofundamento sem o interesse dos dois irmãos.

Desde o princípio interessado em lutar contra a Al Qaeda e ajudar na captura de Osama Bin Laden, Tillman acabou enviado com o irmão para o Iraque, onde rapidamente seu senso crítico pôde ligar o primeiro sinal de alerta, após sua unidade ter atuado no resgate da soldado Jessica Lynch, capturada pelo inimigo. A operação acabou sendo amplamente utilizada como parte da propaganda de guerra americana, inclusive com distorções confirmadas pela própria Lynch, conforme previsto pelo próprio ex-jogador no diário que manteve no seu tempo como soldado.

Hoje, é claro, sabemos que a guerra no Iraque foi notória pela motivação mentirosa de buscar por armas de destruição em massa que jamais existiram, mas Tillman viu de perto o papo furado e a máquina de propaganda do governo e, de acordo com seu irmão e um colega, já carregava a impressão de que a invasão do Iraque era completamente ilegal mesmo antes de chegar lá.

No começo do ano de 2004, Tillman e o irmão conseguiram o que realmente queriam e foram parar no Afeganistão. No mesmo mês de abril em que chegaram por lá, o ex-jogador acabou morto em combate. Sua história foi contada pelo exército como a história de um herói assassinado em combate, tendo dado a vida para salvar seus irmãos em guerra.

Acontece que não foi bem assim.

Aliás, não foi nada assim. Tillman foi morto com três tiros na cabeça pelos próprios soldados americanos de outro destacamento, o que se verificou pelo comando militar horas depois. A investigação sobre o ocorrido, que indicava grave negligência, acabou enterrada, suas roupas e seu diário foram queimados pelo exército, que não deixou nenhum dos companheiros se pronunciar e a história contada para a família foi a do herói morto pelo inimigo. Muito do que se descobriu da verdade por trás do que foi narrado pelo exército americano, veio do esforço enorme da família Tillman, em especial de sua mãe Mary.

Até os dias de hoje, no feriado do Memorial Day, dia de honrar militares assassinados a serviço do exército americano e celebrado nos EUA na última segunda-feira (25/05), Tillman é lembrado e sua história novamente contada.

Morto em combate por fogo amigo em condições suspeitas, o que se sabe é que sua morte foi um acidente encoberto pelo governo que, à época, ainda tentou usar a história do seu soldado mais famoso para tentar limpar sua imagem, bem manchada após a divulgação, dias depois da morte do ex-safety, dos notórios casos de tortura e abuso na prisão de Abu Graib.

Sabendo da visão crítica do jogador, da recusa em cumprir um papel de relações públicas, do seu posicionamento abertamente contra a guerra do Iraque, do seu suposto interesse em se reunir com o intelectual anarquista do MIT e crítico anti guerra, Noam Chomsky, e de todo o esforço do exército americano para encobrir a situação e a investigação decorrente (incluindo destruição de provas), alguém poderia até ficar tentado a insinuar que a morte de Pat Tillman sequer foi um acidente. Jamais saberemos e o que se averiguou até aqui não permite chegar a essa conclusão.

Mas o que temos de fato é isso: um homem corajoso, com um emprego extremamente bem remunerado de atleta profissional, decidiu entrar em ação direta acreditando defender seu país e acabou morto em combate por fogo amigo antes que tivesse a oportunidade de retomar a vida que deixou em casa. A tentativa do governo americano de encobrir a verdadeira narrativa e criar uma ilusão cinematográfica de um herói perfeito, jamais vai conseguir atrapalhar a verdade: Pat Tillman foi um cara incrível, um jogador competente e uma pessoa com uma fibra moral admirável que pode servir de exemplo para todos que conhecerem sua história de maneira honesta e coração aberto.


Ilustração de Guga Sanches




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